03 janeiro 2009

A noite percorria-me as veias enquanto eu permanecia atirada sobre a colcha alaranjada que vestia a minha cama. Era inevitável não pensar, não reflectir à cerca daquela noite e, até, dos últimos dias que mais pareciam meses. Os meus olhos limitavam-se a fitar a luz, muito fraca, do candeeiro que permanecia, há alguns dias, do lado direito da minha cama embora não pertencesse ali. Cada vez mais detestava festejar uma coisa que não existe. O Tempo não existe, foi uma mera invenção humana para dividir a evolução aos pedaços. Porque haveria eu de fazer coisas especiais para marcar a passagem de uma coisa que não existe? Um ano: trezentos e sessenta e cinco dias: oito mil setecentas e sessenta horas: quinhentos e vinte cinco mil e seiscentos minutos: trinta e um milhões e quinhentos e trinta e seis mil segundos? Para quê? Não há nada de diferente à minha espera ao soar das doze badaladas...
Enquanto relembrava a inútil noite de celebração, e cada peripécia do meu dia de preparativos para a mesma, não consseguia deixar de sentir o frio que me envolvia nem a dor que latejava no meu peito, por mais que a tentasse parar. Senti o olhar embaciar-se e pestanejei. As lágrimas saltavam-me dos olhos e escorriam-me pela face, imóvel, até desenharem pequenas pintas mais escuras na colcha alaranjada. Sentia-me perdida e terrivelmente vazia de tal modo que, nem em mim me encontrava. Agarrei-me à almofada que jazia, intocável, à cabeceira da cama desda última manhã e fechei os olhos à espera que a "evolução" se encarregasse de mim.

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